Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


O cinema num futuro próximo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.03.17

 

 

Como será o cinema num futuro próximo? Continuará a prevalecer a longa-metragem? Quais os géneros que terão mais audiência? O cinema passará a ser interactivo?

 

Em 10 anos em que este rio aqui navega (festeja a 14 de Julho), muita coisa mudou no cinema, embora pareça estar tudo na mesma. :) A longa-metragem é o formato que domina; o investimento necessário ainda é elevadíssimo; os prémios continuam a ter uma importância especial, sendo os óscares os mais valorizados; os actores continuam a ser os mais bem pagos da equipa, bem acima dos argumentistas e da edição/montagem, por exemplo.

 

O que mudou e está a mudar é cultural: uma maior proximidade dos actores com o público; uma maior participação dos actores, realizadores e produtores em projectos de valor social; uma consciência da responsabilidade do seu poder de influência. Vemos muitos actores a realizar filmes e/ou a produzir filmes, o que revela que hoje os actores participam activamente no processo criativo.

 

As maiores mudanças no cinema estão a delinear-se:

- as mega-produções e co-produções, como The Wall, serão frequentes e promissoras;

- haverá cada vez mais espaço e oportunidades para a inovação cultural, que surgirá´de micro-produções de equipas e/ou de comunidades criativas, pois a tecnologia acessível é cada vez mais sofisticada;

- o género documentário irá florescer a par dos outros géneros, e os actores poderão ser recrutados na população geral e/ou de uma comunidade local, especificamente para cada projecto;

- na ficção científica procurar-se-á a verosimilhança, o respeito pelas leis científicas em detrimento de efeitos especiais e da fantasia;

- a animação será a indústria com um potencial incrível, onde tudo ainda é possível;

- a curta-metragem passará a valer por si, deixando gradualmente de funcionar como uma simples apresentação de um trabalho para captar investimento para a longa-metragem;

- a média-metragem (40' a 50') começará a ser preferida relativamente à longa duração actual;

- o cinema torna-se interactivo: os espectadores participam na experiência, seja em forma de avaliação emocional de cada cena, de comentários em forma de símbolos ou outros feedbacks. Ir ao cinema será equivalente a ir a uma festa, participar numa experiência sensorial e emocional. Veremos, no final da apresentação do filme, a possibilidade de ficar para a segunda parte com o feedback da assistência que poderá levar a alguns momentos interessantes e até hilariantes, tal como acontece no teatro. Também poderá incluir filmagens de comentários dos elementos da equipa sobre a ideia e a experiência, ou cenas que não foram incluídas, ou episódios cómicos, tal como nas cassetes e nos cd's que alugávamos nos clubes vídeo. O espectador deixará, pois, de ser tratado como voyeur, excepto nos filmes considerados para adultos :) ;

- os clichés estarão fora de moda: ninguém consegue agarrar-se à ponta de um precipício depois de se ter desequilibrado, um fugitivo não escolhe correr no meio da rua ou da estrada, a explosão iminente de uma bomba não é travada no penúltimo segundo :)... e o cliché padrão da comédia romântica: rapaz conhece rapariga, sentem-se maravilhosamente na companhia um do outro, zangam-se, música de fundo e rostos tristíssimos de cada um e, já quase no final, as pazes com um beijo :).

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:39

 

 

 

Admiro os argumentistas que conseguem criar boas comédias. E aqui com todos os meus ingredientes preferidos: uma família, alguns amigos, um cão, uma paisagem de prender a respiração, e uma verdadeira aventura. 

Achei engraçado o resumo na página do IMDB: a história da mulher que gosta mais do cão do que do marido. E um dia o marido perde o cão...

Se formos justos, o cão é a personagem principal, embora apareça apenas no princípio e no fim do filme. O cão está sempre presente, mesmo quando está ausente. Ele é a personagem que irá ligar a família e ajudá-los a valorizar o que verdadeiramente importa. E sem lamechices, mesmo quando mostra o lado chato da vida dos cães: abandonados, colocados em canis superlotados, abatidos quando não adoptados. E já para não falar do lado chato da vida das pessoas: envelhecer, os problemas dos ossos, as pedras nos rins, os exames médicos.

O que sobressai neste filme: o guião, as personagens, o ritmo certo dos diálogos, os actores. Nos filmes de Kasdan as personagens brilham. Há sempre uma certa excentricidade, uma luninosidade, uma rebeldia, uma alegria, distribuídas em doses generosas pelas personagens. A tristeza pode abaná-las mas não as derruba. É essa a marca registada de Kasdan. 

A importância do cão já a vimos numa tragédia, o Turista Acidental, e também no papel de aproximar o homem triste e solitário da mulher alegre e sociável. 

Aqui, depois de salvo na auto-estrada pela mãe e filha, conseguirá a proeza de arranjar o marido perfeito, o veterinário, para a filha, fazer companhia à mãe na fase do ninho vazio, aproximar o casal que está desintonizado e ainda ajudar o sobrinho a aceitar o novo namorado da mãe (dele). 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:44

Os argumentistas e a liberdade individual

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.10.09

Penso ter já referido aqui que tenho saudades de bons documentários. E que vi bons documentários na televisão nos anos 90.

Agora são mais raros, mas hoje, agora mesmo, vi um na TvCine 2, sobre um argumentista que prezava a liberdade acima de tudo e que sofreu na pele ter defendido os seus princípios: Dalton Trumbo.

 

O documentário está muito bem concebido: vários actores conhecidos lêem cartas ou textos seus, desde a sua juventude até à velhice, momentos cruciais da sua vida, momentos-chave.

Como a odiosa Blacklist e a perseguição a tantos artistas de Hollywood com consequências trágicas para muitos.

O documentário inclui igualmente excertos de filmes com argumentos seus, em que se nota o tom dominante e inspirador, de um enorme respeito pela liberdade individual.

Inclui também imagens da época, dos interrogatórios, da pergunta abominável, da terrível escolha de muitos que eram pressionados a denunciar os amigos.

E inclui depoimentos dos próprios filhos e de amigos e de filhos de amigos que permaneceram ao seu lado nesses anos da perseguição paranóide.

Dalton Trumbo foi interrogado pela Comissão (ou lá como se chama aquela estrutura) e, após acusação de desrespeito pelo 83º Tribunal, foi preso em 1950. Ele próprio dirá mais tarde a um jornalista que concordara com a sentença, pois ele não tinha nenhum respeito por aquele Tribunal.

Duas cartas suas, lidas pelos actores, foram escritas na prisão, e assinadas Preso nº 7551.

Dalton Trumbo queria acreditar que aquele, o denunciante, não era o rosto da América. Queria acreditar que o rosto da América era o rosto de tantos anónimos que tinha encontrado ao longo do seu percurso, pessoas comuns nas situações mais diversas, que se lhes perguntasse se gostariam de uma pessoa que denuncia um amigo, todos lhe responderiam que não.

 

Os seus textos são belissimamente bem concebidos e inflamados, quase parecem poemas épicos. E de facto, dá-lhes essa dignidade, a esses anónimos e às suas vidas, a dignidade de escolherem ser livres, de escolherem não denunciar os seus pares. Há também a dignidade da vida em si, pois ao abordar o tema da guerra, da morte, coloca esse direito de viver do lado de cada indivíduo, o direito de escolher não ser morto nas guerras de poder de outros.

Mesmo após a febre persecutória da Blacklist, os argumentistas que nela constavam não podiam assinar os seus trabalhos. Isso aconteceu igualmente com Trumbo que utilizou diversos nomes fictícios e, em pelo menos dois casos, nomes reais, de amigos que não tinham sido acusados.

E não a esquece, à Blacklist, nem esquece os amigos, insiste em lembrar cada uma daquelas vidas destruídas,essa imperdoável e irreparável perda de energia, de sonhos, de talentos.

E tem a consciência e a lucidez de perceber que isso está latente, que pode surgir de novo, que todos os governos de todo o mundo têm a tendência para querer controlar a vida dos cidadãos.

Para Trumbo esta interferência dos governos na vida das pessoas é simplesmente inadmissível. E a sua referência é a própria Constituição Americana.

 

É verdade que este documentário me emocionou. E não foi só a mim, os próprios actores não ficaram indiferentes aos seus textos.

O mais inquietante foi um desabafo seu, já entradote, em que começava a duvidar se a maioria das pessoas, entre a segurança, o abrigo, a alimentação, de um lado, e a liberdade de expressão do outro, não escolheria a primeira.

 

De qualquer modo, são autores assim que inspiram e revelam um outro caminho em que cada indivíduo pode tentar preservar a sua dignidade e a vida a que tem direito.

São autores que souberam escolher um caminho adverso, que não abdicaram dos seus princípios, que nos mostram essa possibilidade.

Numa época tão adversa à liberdade individual como a nossa, em que a escolha da segurança parece tornar-se quase automática, em que nem se reflectem opções e as suas consequências e em que se valoriza o sucesso a qualquer preço (essa outra forma de histeria), os textos de Trumbo ganham uma dimensão muito actual.

 

O documentário também aborda o papel da indústria do Cinema na época. Mesmo que tenha querido passar isenta e distante, na verdade colaborou activamente nesse processo persecutório ao despedir e anular contratos com os referenciados na Lista.

Como Trumbo refere, o poder tenta vergar um indivíduo começando por lhe retirar a segurança económica, baixando-lhe o seu padrão de vida. E aqui a indústria colaborou.

É por isso que o Cinema-arte é magnífico! Porque a sua verdadeira dimensão e magia está muito para além da indústria que o mantém, está nalguns dos seus realizadores, argumentistas, produtores e actores corajosos que souberam defender o seu melhor trunfo: a liberdade de cada indivíduo.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:15


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D